A transformação do mundo e o futuro do profissional securitário

29 de Março de 2018

A transformação do mundo e o futuro do profissional securitário

Última edição do General Insurance Research Organizing (GIRO) Conference aconteceu em Edimburgo, na Escócia

Tendo como tema a transformação do mundo e o futuro do profissional securitário, a última edição do General Insurance Research Organizing (GIRO) Conference ocorreu entre os dias 17 e 20 de outubro de 2017, em Edimburgo, na Escócia, reunindo mais de 900 participantes e, entre estes, o gerente da Superintendência de Estudos e Projetos da CNseg, Thiago Ayres.

Organizado pelo Institute and Faculty of Actuaries (IFoA), da Grã-Bretanha, o evento, voltado ao mercado segurador, abordou questões regulatórias, estudos acadêmicos, contextualizações mundiais, práticas atuariais britânicas e, com crescente interesse, as inovações tecnológicas.

Entre as diversas palestras e painéis realizados no evento, os analistas Chris Wiltshire, Nick Silk e Stefan Claus, do Banco da Inglaterra, apresentaram um estudo acerca dos impactos que veículos autônomos poderão ter sobre o mercado segurador britânico. Este tipo de avanço tem sido visto como positivo, uma vez que estatísticas mostram que a maioria dos veículos permanece estacionada cerca 95% do tempo e, em média, os motoristas perdem 127 horas por ano no trânsito.

Com base no estudo, os palestrantes esperam uma retração de 21% nos seguros de automóvel, no Reino Unido, até 2040. Por outro lado, a previsão é que haja uma redução de 12% na necessidade de capital para o mesmo, o que pode ser explicado pela expectativa de aumento de sinistros de responsabilidade por danos corporais, e consequente agravamento nos passivos das empresas.

Para as seguradoras, uma introdução gradual desses veículos é positiva, pois permite que o mercado tenha tempo para se adaptar a essa nova realidade. Contudo, as respostas aos questionários evidenciaram a necessidade de transformação/evolução da atual cadeia de valor do seguro, incluindo a regulação de sinistros, subscrição e desenvolvimento de produtos. Além disso, acredita-se que o sucesso do setor de seguros no futuro será dependente de parcerias com empresas de tecnologia e produtores.

A precificação de produtos

Outro painel bastante concorrido no evento foi o que tratou de precificação de produtos e contou com a apresentação de Wendy Seago, da Aviva UK, e Steve Powell, da Tokio Marine, com moderação de Hazel Beveridge, da FRC.

Os consumidores britânicos têm buscado valor e conveniência no âmbito comercial. Não obstante, uma pesquisa realizada pela Aviva UK mostrou que é necessário responder 103 perguntas para que uma pessoa consiga uma cotação de seguro residencial por meio de websites típicos de busca de preço, o que acaba se colocando como um dificultador para a contratação. A pesquisa apontou, ainda, que os consumidores consideram a compra de um seguro como um processo complicado, com barreiras de comunicação, particularmente ligadas aos termos técnicos empregados, além de não se sentirem totalmente seguros em relação ao suporte que a seguradora dará em caso de sinistro.

O barômetro de confiança de Edelman, ranking que mede a confiança do consumidor em diversos setores da economia, mostrou que, em 2015, o setor financeiro, no qual o setor segurador se insere, estava na penúltima colocação entre os 14 setores analisados.

A pesquisa da Aviva UK avalia, em suas conclusões, que os atuais modelos de precificação e comercialização podem influenciar positivamente a visão dos consumidores sobre o setor. Atualmente, estes modelos consideram, em sua grande maioria, o comportamento passado dos consumidores, onde, idealmente, deveriam ser considerados os padrões e características de consumo atuais e futuros.

As InsurTechs no mercado segurador britânico

Stefan Claus, David Jeacock e Ruth Ward, do Banco de Londres, apresentaram um painel sobre insurtechs, informando que, ao analisarem o status estratégico atual do setor segurador britânico, evidenciou-se que as startups com foco no setor estão colocando seus esforços, basicamente, em desenvolvimento de produtos, precificação e subscrição, regulação/administração de sinistros e, principalmente, em vendas e marketing.

Os palestrantes também exploraram o percurso das insurtechs no mercado segurador britânico e os potenciais impactos sobre os atuais modelos de negócios do setor. Em conjunto com Bank of London e outras entidades mundiais, a International Association of Insurance Supervisors  (IAIS) vem estudando a fundo o poder disruptivo desses novos players, afirmando que atualmente existem barreiras regulatórias que impedem a entrada por completo dessas startups no mercado. Outra avaliação dos palestrantes é que o “poder” do mercado ainda estará com as seguradoras, mas os corretores serão inevitavelmente impactados.

Machine Learning

O Machine Learning no mercado de seguros também foi abordado em painel do evento, apresentada por Duncan Anderson, diretor Administrativo da Willis Towers Watson e Tony Bradshaw, CEO Regional da Allianz Benelux.

Embora tenha sido dada atenção a algumas técnicas específicas de Machine Learning durante a apresentação, todos os modelos expostos chamaram atenção pelo poder preditivo (acurácia na previsão de sinistralidade, por exemplo) e estabilidade. Ressaltou-se também que técnicas diferentes são aderentes a situações diferentes.

Atualmente, nos Estados Unidos, cerca de um quarto do mercado segurador já utiliza as técnicas de Machine Learning em suas rotinas, tendo como destaque as áreas de distribuição e marketing, administração de clientes, subscrição e gestão de risco, precificação, regulação de sinistros e provisão.

De maneira a ilustrar a crescimento da popularidade da referida técnica e a sua ampla disponibilidade, os palestrantes mostraram um modelo feito por um usuário qualquer - não atuário e fora do mercado – com uma programação de prateleira de identificação de marcas de carros através de fotos. Os resultados foram extremamente satisfatórios, ratificando a oportunidade de ouro que o mercado especializado tem em mãos.

Uma abordagem colaborativa para avaliação e gerenciamento do risco e subscrição de seguro cibernético

A apresentação sobre riscos cibernéticos, que contou com a colaboração entre Deloitte Actuarial e profissionais especialistas em risco cibernético, teve como objetivo discutir o desenvolvimento e evolução do mercado segurador frente a este risco.

Ao fazerem um panorama sobre seguro cibernético, foi exposto que, na maioria das vezes, os hackers/criminosos invadem os sistemas das empresas utilizando o descuido de empregados, ou até mesmo diretores e presidentes. Entre as principais técnicas utilizadas para os ataques estão: Malware (abreviação de "malicious software" em inglês), Ransomware (software nocivo que restringe o acesso ao sistema infectado e cobra um resgate) e engenharia social (golpes aplicados por criminosos com objetivo de enganar, iludir e manipular suas vítimas na entrega de informações confidenciais e dinheiro).

Segundo os palestrantes, atualmente, no Reino Unido, os seguros cibernéticos oferecem proteção contra:

  • Evento de crise: custos de resposta incluindo investigação, relações públicas, notificação e monitoramento de crédito;
  • Responsabilidades: custos legais de defesa e liquidação;
  • Ações Regulatórias: custos para investigar, defender e liquidar multas ou penalidades aplicadas pelo órgão regulador;
  • PCI (Payment Card Industry): multas e penalidades de cartões de crédito, incluindo serviços de forense e custos de remissão de cartões.

Ao expor as coberturas, deu-se ênfase também aos gastos derivados dos sinistros referentes a estes seguros, totalizando US$ 76,07 milhões em 2016, onde 75% são relativos aos eventos de crise, 12% às responsabilidades, 8% às ações regulatórias e 5% ao PCI.

Entretanto, devido à falta de um conjunto de dados histórico, o cálculo da precificação para o seguro cibernético ainda é muito precário. Atualmente, as metodologias de precificação utilizadas no mercado baseiam-se em: frequência e severidade; cenários e simulações; ajuste de curvas; estimação da exposição agregada ao risco; Machine Learning; ou administração da exposição (não excluir da apólice nada que seja considerado importante, ou, até mesmo, incluir coberturas “não precificadas” pela falta de conhecimento).

O Giro Conference 2017 encerrou-se com um almoço no dia 20, quando foi anunciado que a edição de 2018 será em Birmingham, na Inglaterra.

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