Juros baixando... O quê muda?

08 de Fevereiro de 2017

Juros baixando... O quê muda?

Confira a coluna do consultor financeiro, Álvaro Modernell

Depois de uma trajetória de alta nos juros básicos, finalmente uma inversão. Uma baixa que sinaliza os rumos da economia para os próximos meses.

Apenas a título de registro, 2016 findou com a maior taxa anual de juros dos últimos 10 anos, 14,75%. No início de 2017 a taxa caiu para 14,00%. Mas essas não são, nem de longe, as maiores ou menores taxas que experimentamos nos anos dois mil. Chegou a 26,5% em 2003 e a 7,25% dez anos mais tarde. A média dos últimos dez anos ficou em 11,1%, com altas e quedas acentuadas. Em resumo: uma bagunça danada!

Como organizar as finanças pessoais assim?

A primeira coisa a fazer é aceitar isso como realidade. Essa variável, que se mostra constante, deve estar presente em todos os cenários: pode, e vai, mudar. Mais cedo ou mais tarde, para cima ou para baixo. Dependendo do intervalo, nos dois sentidos. Então, não devemos balizar as linhas gerais na taxa vigente, muito menos nas expectativas propaladas na imprensa. Devemos, então, prever mecanismos de ajuste, a cada mudança sensível da realidade. Aliás, para muitos, as taxas, a crise funcionam como muleta, uma desculpa para não fazer o que precisa ser feito: cortar despesas, planejar, organizar e controlar o orçamento.

Muito se fala, mas pouco se explica sobre o papel da taxa de juros básica da economia, a SELIC, no Brasil. Até porque, para quem investe, os números são até próximos, ou seja, as taxas obtidas ficam pouco abaixo ou acima desse patamar, conforme o poder de negociação da pessoa. Porém, para quem está devendo, 14% ao ano não faz nem cosquinha nas taxas realmente pagas.

Para dar uma ideia, essa taxa anual é muito próxima do que a maioria dos cartões de crédito cobra por mês. Usando a mesma base, anual, atualmente o cheque especial custa mais de 300% ao ano, o cartão de crédito 450%, os empréstimos pessoais, de 50 a 70% nos bancos e mais de 120% nas financeiras. Consignados, geralmente os mais baratos, acima de 30 e até 40%. Sem falar nas taxas, tarifas...

Para quem está na ponta positiva, investindo dinheiro, pouco a recomendar, e nenhuma novidade: diversificar, adequar o tipo de investimento aos objetivos e prazos, priorizar investimentos tradicionais e de baixo risco, equilibrar presente e futuro, ficar atento às oportunidades e ameaças, cuidado com os aspectos tributários...

Para quem está devendo, um mundo de oportunidades! Sempre. Seja com taxas altas ou baixas. Na baixa, melhor ainda. Primeiro, óbvio, porque a dívida cresce mais lentamente. Segundo, porque, se a queda continuar, ficará mais fácil honrar os compromissos de eventual renegociação. Terceiro, porque os credores querem receber seu dinheiro de volta, então, há margem para negociação, isso é, para reduzir o saldo, a taxa e o valor da prestação.

Mas o que faz diferença mesmo, o que precisa mudar, são as atitudes dentro de casa ou diante das situações de consumo. Seja com taxas em alta ou em baixa, veja o que funciona mesmo:

Tem dívidas? Foco nelas. Impossível progredir, viver em paz, prosperar, atolado em dívidas e preocupações. Comece pelas menores, aquelas que você pode pagar com pequenos sacrifícios, que funcionam como pedras no sapato, impedindo o caminhar altivo. A seguir, priorize a renegociação das dívidas mais caras, buscando redução nos saldos, nas taxas e, se necessário, aumento nos prazos. Vasculhe sua casa e sua agenda. Encontre bens que possam ser vendidos para amortizar as dívidas. Do seu tempo livre, transforme uma parte em suor e grana.

Está no zero a zero? Cuidado! O menor deslize ou imprevisto pode empurrá-lo para o negativo. Esforce-se para constituir reservas que o deixem mais tranquilo. Inclua no seu orçamento pelo menos 5% para imprevistos e 10% para poupar e investir. Pode ser em conta de poupança, título de capitalização, Tesouro Direto. Escolha o que preferir. Só não vale buscar desculpa para não fazer.

Tem investimentos? Ótimo! Com as taxas mais baixas é preciso ficar mais atendo aos aspectos tributários, às tentações de querer ganhar dinheiro rápido e aos impulsos de consumo.

Mudam as taxas, para cima e para baixo, há anos! Crises e oportunidades vêm e vão. Só quem melhora de vida é quem muda de atitude, independentemente do cenário.

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