Atuário, o cientista de dados

20 de Setembro de 2017

Atuário, o cientista de dados

Painel 5º Encontro Nacional de Atuários avaliou a evolução e importânia da profissão

O atuário está preparado para assumir a função de cientista de dados? Essa foi a provocação feita por Cristina Mano, sócia diretora da Cantanhede Mano Consultoria em Atuária, na abertura da sua palestra “Precificação no âmbito do data science”, no 5º Encontro Nacional de Atuários,que acontece paralelamente à 8ª CONSEGURO, no Rio de Janeiro. Em parte, sim, porém é preciso um grande investimento de tempo para entender um pouco sobre como toda a tecnologia digital tem mudado o mundo dos negócios, com a diversidade de dados e cálculos atuarias que podem ser feitos pelos robôs e algoritmos que analisam um imensidão de informações disponíveis.

Em razão das seguradoras brasileiras ainda estarem atrasadas em relação à modernidade vista no mundo em termos de precificação, com produtos ofertados a clientes sem a devida precificação personalizada, a provocação foi um tiro certeiro na plateia de atuários. Muitos se queixam de que técnicos em tecnologia estão ocupando o lugar do atuário por saberem manusear algoritmos de precificação, algo, até pouco tempo atrás, delegado aos profissionais de atuária.

Cristina é enfática ao afirmar que o mundo digital não é um canal. “É uma mudança fundamental na forma como as pessoas trabalham e interagem. O uso do Data Science no mercado segurador é inevitável”. Ela aborda todos os benefícios que a tecnologia traz ao setor de seguros. "Há uma grande necessidade de aperfeiçoar o conjunto de habilidades técnicas e softwares relevantes para analisar big data", frisa.

E é um investimento pessoal que vale a pena, garante. O big data pode ajudar a encontrar respostas para as necessidades dos segurados e da sociedade. Os segurados serão informados de seus comportamentos para que possam corrigir e alterar o comportamento de risco. Todos saem ganhando com isso: o cliente, que muda de comportamento ao ter consciência dos riscos, a seguradora, que vende mais por ter um preço mais assertivo, e a sociedade, que acaba sendo mais longeva”, argumenta.

Segundo o diretor técnico atuarial da Bradesco Auto RE, Saint Clair Lima, tudo isso acontece em algumas seguradoras. Parte disso já é realizado dentro da Bradesco. Hoje, o grupo já é formado por 30 funcionários, entre atuários e estatísticos. Temos 6 bilhões de quilômetros rastreados de nossos clientes. O importante agora é trazer valor agregado com a prestação de serviço customizada, comentou.

Isso significa dizer que é uma grande oportunidade para os novos profissionais e também para os profissionais mais experientes que se atualizam com a nova tecnologia. É um mundo novo que está à disposição de todos que buscarem cursos que estão disponíveis, muitos gratuitamente, na web e em instituições educacionais renovadas.

O atuário tem grandes benefícios com o uso do big data. Uma vez que ele vive de dados para calcular um risco e a probabilidade dele acontecer, agora tem a sua disposição uma infinidade de informações. Mas tem de aprender a usá-las. “O biga data permite uma abordagem dinâmica do gerenciamento de risco”, diz a consultora.

Eduardo Fraga, professor da Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES/ESNS) e do Instituto de Matemática da UERJ e funcionário da Susep, concorda com Lima. “O que precisa ganhar força agora é a educação”, diz. A própria Susep tem rodado o mundo para entender melhor como esse movimento de insurtech está afetando o setor e os consumidores.

Ele cita um recente estudo divulgado pela IAIS, que traçou três cenários. No primeiro, a seguradoras mantém a relação com o cliente, alavancando seus negócios com a tecnologia. No segundo, a cadeia de valor é segmentada, com a relação com o cliente dependendo de empresas de tecnologia ou provedores de serviços. E, no mais catastrófico, a possibilidade de empresas de tecnologia utilizarem sua vantagem analítica para superar as seguradoras tradicionais. “Vejo aqui a grande contribuição que os atuários podem dar para as seguradoras: traçarem a melhor estratégia dentro deste novo mundo de insurtechs”, diz Fraga.

E o tempo é vital para determinar qual destes três cenários vai se consolidar no Brasil no médio prazo. “Tudo está mudando muito rápido e temos de correr para acompanhar tanta mudança”, disse. O primeiro perfil de atuário foi lançado no século 17, com métodos determinísticos para precificar o seguro de vida. 250 anos depois rotularam o atuário tipo 2, que atendia às necessidades do segmento de seguros gerais com métodos probabilísticos. 60 anos depois, em 1980, foi a vez de catalogar o atuário 3, definido pelo uso de processos estocásticos na avaliação de risco financeiro.

O quarto tipo de atuário surgiu no início do século 21, com o ERM, avaliando todos os riscos que afetam uma organização. O quinto é o atuário da segunda década do século XXI, aquele caracterizado por utilizar big data ou data science. Foi neste estágio que boa parte da plateia se encaixou. Atuários 4 em modo “download” para o perfil 5.

“A pergunta que se já se faz é: o que o atuário do tipo 6 vai fazer? É bom que todos pensem nisso, pois o tempo maximiza as mudanças e não podemos deixar passar uma oportunidade tão grandiosa de valorizar o atuário como o verdadeiro cientistas dos dados”, finalizou a consultora.

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