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Ações em prol da redução dos índices de reincidência criminal são tema de palestra organizada pela CNseg

Diretora do Instituto Ação Pela Paz e representantes de grupos de voluntários apresentaram suas experiências com a causa

10 de Fevereiro de 2020 - Eventos

“A criminalidade, por si só, já é muito impactante para o seguro, mas nosso setor tem um compromisso ainda maior, que é o de ajudar o Brasil em seu processo civilizatório”, afirmou o presidente da CNseg, Marcio Coriolano, na abertura da palestra realizada em 7 de fevereiro, na sede da Confederação das Seguradoras, no Rio, pelo Instituto Ação Pela Paz (IAP), que atua em apoio a ações que reduzam a reincidência criminal e promovam a inserção de ex-detentos no mercado de trabalho.

A diretora de Relações de Consumo e Comunicação da CNseg, Solange Beatriz Palheiro Mendes, lembrou que as ações do Instituto têm um grande valor para a sociedade, indo muito além da reabilitação de pessoas ao fortalecer a dignidade humana. “O apoio da CNseg não é financeiro, indo na direção da sensibilização das pessoas pelo tema”, afirmou.

O Instituto Ação Pela Paz, que tem a CNseg como uma de suas fundadoras, foi idealizado pelo ex-presidente da Confederação e membro de seu Conselho Consultivo, Jayme Garfinkel, tendo como diretora-executiva Solange Senese, que lembrou que o Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, além de ter um índice de reincidência criminal de aproximadamente 70%. “Esse problema precisa ser visto na esfera da participação da sociedade”, explicou. E para justificar sua declaração, informou que, das 2.661 pessoas privadas de liberdade e ex-detentas atendidas pelo projeto Semear, 93% não retornaram ao sistema prisional. “O Estado já faz muita coisa, mas quando há a participação da sociedade, a curva de sucesso é muito maior”, disse. Ela também explicou que o IAP possui apenas um projeto próprio, que é o "Semeando Sonhos, Despertando Possibilidades", atuando, principalmente, no apoio a outros projetos, sistematizando e disseminado o conhecimento adquirido. “Queremos fazer coisas que sabemos que dão resultado”, disse ela. Entretanto, Senese lembrou que eles também estão abertos a apoiarem projetos idealizados por pessoas que os procurarem, desde que contribuam para a elevação da cognição dos atendidos e de seus sentimentos de pertencimento e superação.

Logo em seguida, Patrícia Gonzalles (ex-CNseg) e Mariana Ostrmann, idealizadoras do projeto Sagrada Essência, de empoderamento feminino junto a presidiárias, deram seus depoimentos, afirmando que a realização de um trabalho voluntário dentro de um presídio é uma experiência transformadora. “Como foi dito aqui, o que nos separa das pessoas de dentro dos presídios não são as grades, mas o olhar”, disse Patrícia. Mariana, por sua vez, disse ter se surpreendido, nas primeiras visitas a presídios femininos, com o grande interesse demonstrado pelas detentas em participar dos programas. “era uma disputa para contar sua história, para chorar e para querer sair de lá melhor”.

“Quando vamos a um presídio e cuidamos da alma, há um resultado”, afirmou Ilaci de Oliveira, fundadora da Cooperativa Transvida, da Comunidade da Penha, que atende a 150 famílias, atuando no trabalho de reciclagem de resíduos. Ilaci também afirmou que muitos que retornam ao crime o fazem por falta de opções de sustento, sendo necessário nunca deixarmos de acreditar na transformação do ser humano.

Dandara Tinoco, do Instituto Igarapé, que atua na proposição de soluções para os problemas enfrentados na área da segurança pública, lembrou que o trabalho de reinserção de ex-detentos na sociedade é um caminho para torná-la mais segura, visto que a repressão, sozinha, não trará os resultados desejados. Ela informou que, de 2000 a 2017, somente a população carcerária feminina aumentou sete vezes, sem que tenhamos visto uma efetiva redução da criminalidade. “Para que essas pessoas possam construir novas trajetórias, precisamos dar as ferramentas”, concluiu.

A violência doméstica também esteve entre os temas da palestra, abordada pela juíza titular da 2ª Vara Criminal e Violência Doméstica de Itaboraí, Juliana Cardoso Monteiro de Barros. Segundo ela, um dos problemas enfrentados na Vara é o da dificuldade que as mulheres agredidas têm para denunciar seus agressores, entre outras razões, pela “obrigação de demonstrar que estamos sempre felizes” disseminada pelas redes sociais. “Precisamos rever esse paradigma da felicidade plena’, afirmou. Outro fator cultural complicador, segundo ela, é o da masculinidade tóxica. “Os homens são criados de forma a não poderem demonstrar medo e insegurança, mas podendo demonstrar raiva”. Raiva, esta, que gera graves consequências para todos os envolvidos. Os agressores podem se tornar réus em processos criminais, os filhos podem desenvolver uma série de problemas psicológicos e as vítimas, quando sobrevivem, podem ficar com sequelas físicas e emocionais para o resto da vida.

Juliana, que realiza frequentemente palestras para agressores domésticos, explicou que o processo de recuperação passa por três etapas: reconhecimento, confissão e abandono da prática. Já as palestras realizadas para as mulheres agredidas envolvem um atendimento humanizado, com a participação de psicólogos e assistentes sociais, reforçando que as vítimas devem denunciar seus abusadores, tanto por uma questão de amor próprio, como por amor aos filhos.

 

 

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