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Com apoio da CNseg, projeto criado por ex-alunos da USP ajuda a mudar a vida de egressos prisionais

Nova Rota foi criado em 2020 e conta atualmente com 50 voluntários e nove bolsistas

09 de Agosto de 2021 - Instituto Ação Pela Paz

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Equipe Nova Rota com parceiros – Foto: divulgação

O Brasil, infelizmente, ainda ocupa os primeiros lugares no ranking mundial de desigualdade, um número que gera preocupação e problemas em diversas esferas da sociedade. O último levantamento do IBGE, com base nos dados do Banco Mundial, mostrou que o país é o nono mais desigual do mundo.

Com dimensões continentais e uma distribuição de renda que não atende da mesma forma a sua população, a pessoa egressa prisional no Brasil tende a ser a última na concorrida fila de oportunidades e bem-estar social. Uma questão que impacta de maneira direta e indireta para a construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária, além de impactar nos índices de violência.

Pensando nisso, no fim de 2019, três ex-alunos do curso de Direito da USP (Universidade de São Paulo) começaram a pensar maneiras de como ajudar a tornar essa realidade diferente para aqueles que deixam as unidades prisionais. Em 2020, os jovens bacharéis Leandro Félix, Vitor Barbosa e Katherine Martins deram vida ao Projeto Nova Rota.

Utilizando a educação e capacitação profissional para otimizar potencialidades individuais desse público, a iniciativa encerrou o ano passado com 15 voluntários e três bolsistas em cursos. Em 2021, os números saltaram para um voluntariado com 50 colaboradores e nove beneficiados com bolsas de estudos.

Todo esse esforço tem como ponto de partida a necessidade do país. O Brasil tem índices alarmantes de encarceramento. Atualmente, são mais de 800 mil pessoas privadas de

liberdade, sendo que 54% delas são jovens entre 18 e 29 anos e apenas 15% deste total possui Ensino Médio completo.

“O Brasil ocupa o 3º lugar no ranking de países com maior número de pessoas presas no mundo, com quase 800 mil pessoas encarceradas, com um déficit de vagas no sentido de que o número de pessoas presas excede em absurdos 41,4% ao total de vagas disponíveis, o que contribui expressivamente para um elevadíssimo nível de reincidência”, argumenta Vitor Barbosa.

De acordo com levantamento do Conselho Nacional de Justiça, de 2020, 42,5% das pessoas com mais de 18 anos que tinham processos registrados em 2015 retornaram ao sistema prisional até dezembro de 2019.

Vitor explica que o Nova Rota busca “dar oportunidades a um público historicamente excluído e servir como uma experiência para verificar o potencial da educação como transformação da realidade desse público. Além disso, o projeto foi criado com o propósito de pautar o grave cenário do sistema carcerário brasileiro e a ausência de políticas públicas às pessoas egressas”.

O advogado reforça ainda que o propósito do projeto é que “essas oportunidades de educação fortaleçam políticas públicas e iniciativas da sociedade civil e reduzam o nível de encarceramento e a taxa de retorno ao cárcere após o cumprimento da pena”.

Desde o seu primeiro ano, o Nova Rota conta com o apoio financeiro da CNseg, que, por intermédio do Instituto Ação Pela Paz, contribui com o desenvolvimento do projeto. Junto a uma rede de parceiros estratégicos, a iniciativa fechou pontas importantes para um processo que resulta na geração de emprego e renda, além da ampliação do conhecimento.

Os institutos Responsa e Recomeçar auxiliam na captação de potenciais beneficiários. O Recomeçar ainda abre caminhos para os participantes na reinserção ao mercado de trabalho. Já a Universidade Estácio de Sá contribui com a causa na concessão de bolsas de estudo.

Educação, mentorias e apoio psicológico

Cada bolsista é acompanhado por dois ou mais mentores voluntários. O contato constante tem como objetivo promover a inspiração mútua pelo exemplo e pela troca de experiências. O trabalho serve como suporte aos desafios práticos enfrentados pelos alunos.

Outorgando a qualidade do conteúdo promovido, os mentores do Nova Rota passam por formação no Núcleo de Pesquisa e Extensão Sobre a Pena e a Execução Penal da Universidade de São Paulo (NPEPEP-USP).

“A educação é uma ferramenta importante de transformação. Por meio da educação, nossos bolsistas desenvolvem um censo de pertencimento e acolhimento. Os ideais do projeto é que o acesso à informação e, mais especificamente, o acesso à educação são ferramentas transformadoras e de difícil desapropriação”, diz a advogada Amanda Barelli, membro do Conselho Fiscal do Nova Rota.

Amanda, outra ex-aluna da USP, ainda frisa que uma capacitação adequada parece ser “o caminho para a reinserção social, para a possibilidade de novas vivências e para redução dos índices de reincidência que, infelizmente, ainda são bastante alarmantes”.

Outra frente do projeto é o apoio psicológico. Cada bolsista realiza semanalmente um acompanhamento, em sessão individual, com profissionais voluntárias. O programa é supervisionado por Laisa Teixeira, psicóloga com experiência com pessoas em situações de cárcere.

Expansão

Amanda Barelli nos conta que o Projeto está em fase de expansão e a perspectiva é manter um saldo positivo de crescimento para os próximos meses em termos de bolsistas, voluntários e parcerias.

“Há uma enorme demanda do nosso público-alvo por oportunidades educacionais e nosso objetivo é acolher o maior número possível de bolsistas. Para tanto, buscamos também identificar oportunidades de incrementar as doações ao projeto e o número de voluntário”, explica Amanda.

Atualmente, o Nova rota conta com uma frente bastante ativa de comunicação, participação de editais voltados a doação a ONGs e iniciativas de crowdfunding. “Neste momento, estamos focados em finalizar o processo seletivo para o segundo semestre e pretendemos selecionar pelo menos mais três bolsistas (um crescimento de 30% em termos de número de bolsistas) que começarão a estudar ainda no segundo semestre de 2021”, detalha Barelli.

Vitor Barbosa resume bem o papel do projeto que fundou ao lado seus colegas ao lembrar os dados do sistema prisional brasileiro. “Tais números reforçam a necessidade de revisão de políticas públicas, a necessidade de engajamento da sociedade civil para fins de garantir a efetivação de direitos fundamentais no sistema carcerário, a socialização efetiva e redução dos índices de reincidência criminal”, conclui.

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