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Diversidade à Mesa capacita pessoas LGBTQIA+ no ramo gastronômico

Em aulas construídas coletivamente, o curso teve maioria de mulheres transexuais e travestis

01 de Julho de 2021 - Instituto Ação Pela Paz

 

O dia 28 de junho é dedicado à Visibilidade LGBTQIA+ e todo o mês é voltado ao tema. E não é à toa. Nessa mesma data, em 1969, membros de grupos em defesa à diversidade sexual promoveram manifestações contra uma invasão da polícia de Nova York ao bar Stonewall Inn, nos Estados Unidos, conhecido local frequentado em sua maioria por gays e lésbicas.

Esse acontecimento foi um marco para a comunidade e se torna um momento de reflexão ainda mais relevante nos tempos atuais.

Carregando essa memória, entre os dias 25 de maio e 9 de junho, aconteceu o “Diversidade à Mesa”, projeto apoiado pela CNseg, por meio do Instituto Ação pela Paz que visa capacitar a população LGBTQIA+ egressa do sistema prisional e seus familiares. Para isso, a ação foca em qualificação profissional de auxiliar de cozinha, além do auxílio à inserção no mercado de trabalho e geração de renda.

Em 10 aulas com duração de duas horas cada, os beneficiários tiveram contato com temas como cidadania, ética e políticas sociais. Junto a isso, eles passaram por uma qualificação que abordou cultura alimentar, conceitos básicos de cozinha, acompanhado de técnicas de preparos, cortes e elaboração de pratos.

Dando um suporte mais completo, o curso tratou doenças transmitidas por alimentos e uma imersão no mundo do trabalho, levantando questões sobre segurança, profissões, empreendedorismo e economia solidária.

Dos 15 beneficiários que iniciaram o projeto, 13 concluíram o ciclo preparatório. Dos que desistiram, uma pessoa teve um bom motivo: a conquista de um novo emprego. Na prática, as aulas foram divididas em duas turmas, formadas majoritariamente por mulheres transexuais ou travestis.

A ação foi coordenada pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) e promovida pelo Grupo de Capacitação, Aperfeiçoamento e Empregabilidade (GCAE) e o Departamento de Atenção ao Egresso e Família (DAEF), da Coordenadoria de Reintegração Social e Cidadania (CRSC).

Na contramão das edições anteriores, o curso teve apenas um encontro presencial, logo no início, respeitando todas as normas de prevenção ao contágio da Covid-19. Depois, os ensinamentos foram todos na modalidade virtual.

Com o formato online, cada participante podia assistir as aulas de lugares diferentes, e isso se transformou numa oportunidade de compreender um pouco o dia a dia dos integrantes do grupo. O que poderia ser um empecilho, virou uma nova forma de conhecer quem estava do outro lado da tela, desmontando qualquer estereótipo, como aponta Yara Toscano, Diretora da Central de Atenção ao Egresso e Família (CAEF) na região metropolitana de São Paulo.

“Foi uma experiência incrível estar no universo daquelas pessoas, em suas casas, em sua rotina. Observá-las realizando as compras, caminhando pelos seus territórios, no transporte público, fazendo os serviços domésticos, cuidando de seus filhos”, relembra Yara.

Realizado por parceiros, professores e voluntários, o projeto conta, desde a segunda edição com o apoio do Instituto Ação Pela Paz, que contribuiu em 2021 oferecendo acesso à internet de qualidade, garantindo aos participantes o ingresso às aulas telepresenciais.

O instituto concedeu também um cartão de alimentação para que os beneficiários comprassem os ingredientes para criarem as receitas aprendidas nas aulas. A organização colabora conjuntamente na parte dos instrumentais quantitativos e qualitativos gerados ao longo do programa.

As receitas preparadas no projeto consideraram as práticas e as memórias alimentares dos participantes dos cursos, criando repertórios que possibilitam a construção de relações de pertencimento e maior apropriação das técnicas e assuntos abordados na formação.

As aulas foram construídas coletivamente a partir dos saberes e das experiências do grupo. Para isso, os integrantes montaram um mapa afetivo-alimentar que dialoga por todo o curso com a realidade das pessoas presentes, trazendo muito em pauta o comfort food, nome dado à boa e velha comida caseira.

Formatura com personalidade

No dia 9 de junho foi realizada a formatura do “Diversidade à Mesa”. O evento contou com a entrega simbólica de certificados aos formandos e formandas. Tudo aconteceu em formato virtual, com participação dos alunos remotamente, mas com a solenidade transmitida direto do auditório da CRSC.

O encerramento teve a participação de renomados chefes de cozinha e a apresentação de fotografias e vídeos registrados ao longo do curso pelos próprios formandos. Para concluir, shows de drag queens deram o toque final para o projeto.

Um novo sonho coletivo

Uma pesquisa final apontou que todos os participantes ficaram muito satisfeitos com o projeto e disseram que obtiveram novos aprendizados na área de culinária. 100% concordam que a ação ajudou no aumento das habilidades com a cozinha. Já 88% dos entrevistados vislumbram um futuro mais saboroso e revelam um novo sonho: trabalhar na área gastronômica.

Para Yara Toscano, o “Diversidade à Mesa” possibilita a criação de uma rede de forte conexão. “Quando cada edição acaba, as pessoas continuam conectadas e se ajudando mutuamente para enfrentar o preconceito, através de troca de informação sobre serviços e normativas e, também, para divulgação de oportunidades de trabalho e renda. E, afinal, não é esse um dos caminhos de fortalecimento das pessoas?”, conclui a diretora com uma pergunta que sabemos a resposta.

 

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