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Marcio Coriolano deixa importante legado ao setor em seus seis anos à frente da CNseg

'Vou cuidar dos meus afazeres pessoais e familiares, sem pretender deixar de oferecer a minha contribuição dessa experiência acumulada onde puder ser útil para os seguros", disse ele ao blog Sonho Seguro

14 de Abril de 2022 - Entrevista

Marcio Coriolano se dedica, diariamente, há quase 30 anos para o setor de seguros. Tive o privilégio de acompanhar este período e contar com o apoio deste querido executivo para praticamente 90% das pautas jornalísticas que desenvolvi nesses anos. Certamente, boa parte do sucesso do setor na mídia brasileira se deve ao seu empenho. Orquestrou um banco de dados estatísticos de dar inveja a qualquer outro setor. Gentilmente sempre arrumou um tempo na agenda e alimentou jornalistas com conteúdo relevante para tornar o setor de seguros mais conhecido de toda a sociedade brasileira, incluindo ai Governo, Legislativo e Judiciário, ministros, juristas, políticos, órgãos de defesa do consumidor, empresários e tantos outros setores vitais para a economia. Fica aqui o meu muito obrigada e um resumo da entrevista que gentilmente me concedeu para fazer um balanço de sua gestão nesses seis anos à frente da CNseg, a Confederação Nacional das Seguradoras.

Coriolano, esses seis anos em que esteve à frente da CNseg foram desafiadores para a economia e para o setor. Cite os principais para o Brasil neste período, com recessão prolongada, e o que espera para 2023, no pós-eleição?

Com esses antecedentes desafiadores, fizemos um trabalho muito forte de planejamento estratégico no conselho diretor. Elaboramos dois grandes planejamentos, que pautaram a nossa agenda nesse período. Desdobramos esse planejamento em ações operacionais, com a prata da casa, para dar conta de posicionamentos junto aos reguladores, Congresso Nacional e judiciário. Outro ponto a destacar, para viabilizar esses posicionamentos, foi a mobilização permanente das comissões temáticas da CNseg, formadas pelos colegas das companhias, especialistas “praticantes” de cada dimensão dos seguros envolvida. Isso foi acompanhado de um trabalho amplo de comunicação com todos os públicos que permitiu uma boa sinergia com a Fenacor, sindicatos de seguradoras, mídias sociais, mídia especializada e veículos da grande mídia que acompanham o setor. Pelos “públicos”, entenda-se também os poderes constituídos, para melhor entendimento deles sobre o alcance dos seguros.

Todo esse trabalho recebeu suporte do Comitê de Estudos de Mercado (CEM) –, criado em 2016, que ao longo do tempo foi crescendo e passou a ser o guia de estruturação de dados e análises de mercado, econômicas e sociais, para suportar o nosso planejamento operacional. Esses fatores foram muito importantes para a principal missão da CNseg, que é a de dar suporte institucional para as suas associadas. E tivemos conquistas importantes. A despeito das recessões, e dos seus impactos para a nossa atividade, o setor de seguros conseguiu preservar sua solvência, fazer uso da tecnologia embarcada e responder à crescente aversão aos riscos por parte da sociedade. A demanda demonstra isso. Os números do mercado, também.

Quanto ao que esperar para 2023, acho que ainda está distante. Me parece que o que esperar deste ano e do próximo não se resume ao calendário eleitoral. Os cenários dependem da trajetória da inflação e da taxa de juros, da política monetária e fiscal, do equilíbrio das contas externas, e do equacionamento dos problemas das cadeias produtivas mundiais, agravadas agora pelas consequências da guerra da Ucrânia. Embora todos concordem que também temos muitas oportunidades. Novamente, o nível de solvência e de governança característicos da atualidade do nosso setor. A favor também a maior busca por proteção por todos os segmentos da população. E, com a recente regulação da Susep que vem permitindo, e deve continuar, produtos de seguros mais céleres e flexíveis. O que deve aumentar a retenção de quem já participa do mercado e dar condições para alcançar parcelas de menor renda média.

Quais mudanças regulatórias você destaca?

A flexibilização da construção de planos de seguros, facilitada pela recente desregulamentação da Susep para os ramos de danos e responsabilidades, deverá ser solução para as camadas de renda mais baixa. E também o microsseguro, que até há pouco era regulamentado mais para ser um degrau para seguros mais amplos, foi reestruturado para deixar de ser um degrau e virar uma plataforma. Então, também com essa nova regulamentação da Susep, as companhias já dispõem de uma referência para seguros que atendam especificamente àqueles que não tem renda para acessar a grade dos seguros oferecidos.

No caso do Open Insurance, ainda que seu propósito seja aumentar a inclusão securitária e a competitividade, o caminho escolhido precisa ser aperfeiçoado. Grande parte da população brasileira ainda não tem recursos digitais além do uso de aparelhos celulares. A implementação acelerada, por parte do Governo, o escopo extensivo de ramos e produtos, e a incerteza que pende sobre a definição do papel dos corretores na arquitetura do Open Insurance, não rimam com o melhor custo-benefício dessa empreitada. A CNseg tem buscado colaborar muito para que a implantação seja cautelosa e progressiva, até para que o sistema de seguros privados possa ir medindo os benefícios para todos. Sobre o sandbox, está ficando comprovado que é uma boa iniciativa, embora as limitações de acesso digital de grande parte da população e a forte capitalização necessária ao ingresso no sistema de seguros estejam levando as sandbox a um espaço de colaboração com as empresas incumbentes, mais do que competição. 

 O Open Finance é uma realidade. Como vê o seguro dentro deste programa no médio e longo prazo?

Os normativos do Banco Central sobre o Open Finance, depois copiados para o Open Insurance, foram inspirados nos fundamentos da União Europeia e, no caso dos seguros, precisam de adaptação às condições brasileiras. Afinal, os paradigmas do sistema aberto de seguros não observam as diferenças estruturais e funcionais entre ele e o Open Finance, especialmente o espaço competitivo, complexidade de produtos, grau de fidelidade, portabilidade e o papel importantíssimo do corretor de seguros, que só agora começou a ser revisitado. Volto a destacar que o Open Insurance é uma iniciativa inédita no mundo e que outros países estão sendo cautelosos quanto à sua implementação. Segundo dados da PWC, apenas 1/3 da população brasileira tem acesso pleno à internet, que é a base da digitalização que é premissa dos “open”.

O fato é que não se pode comparar um ativo financeiro com um produto de previdência, vida ou grandes riscos. O grau de complexidade destes é muito maior. Assim como o grau de fidelidade e portabilidade é diferente. É mais difícil haver uma migração de pessoas entre instituições bancárias, pela fidelidade. No seguro, não. A cada ano que vou renovar os meus seguros eu consulto o meu corretor.

Internacionalmente, quais as principais conquistas da CNseg no período em que esteve como porta-voz do setor?

Dei continuidade à nossa participação na FIDES. Em dezembro de 2020, a CNseg foi eleita para integrar o Conselho da Presidência da Federación Interamericana de Empresas de Seguros (Fides) – uma organização sem fins lucrativos que congrega as associações representativas do setor de seguros de 16 países da América Latina, além dos Estados Unidos da América e Espanha – ocupando o cargo de segunda Vice-Presidência. Nessa condição, presidi a Comissão Regional Sul da Fides, composta por cinco representações da Região: Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. A Fides tem como missão cuidar da imagem institucional do seguro e do resseguro, estimular seu desenvolvimento, promover o intercâmbio entre os mercados regionais e realizar pesquisas e programas de educação em seguros. Foi período de grande interação entre os países, principalmente porque a integração foi fortalecida pela pandemia, que nos colocou à prova, além de evidenciar que as questões que desafiam o setor são absolutamente comuns. 

E agora, em 19 de abril, participarei do evento “Os desafios do desenvolvimento: o futuro da regulação estatal”, em Portugal. A organização é do Fórum de Integração Brasil Europa (FIBE), que tem como um de seus coordenadores o Ministro Gilmar Mendes, do STF. Será uma boa oportunidade para debater os caminhos da retomada do bem-estar econômico e social, em meio às transformações da revolução digital, da pandemia, e do reposicionamento dos blocos econômicos globais. Estarei na mesa redonda do painel “Regulação Econômica”, sobre “Serviços e instituições financeiras”, tratando dos seguros.

Um ponto importante, que como jornalista muito me orgulha, são as estatísticas do setor, agora em abundância. Conte um pouco de suas conquistas neste quesito em que deixa um grande legado e o que mais pode ser feito pelo seu sucessor?

Muitas estatísticas já eram coletadas e tratadas pela CNseg, porém, grande parte ainda não tínhamos divulgado para o público. A partir da criação do CEM, o nosso Comitê de Estudos de Mercado, construímos uma premissa de que estatísticas são um meio importante para a análise setorial, mas não suficiente. Reestruturamos a área responsável pelas análises estatísticas, para incorporar a dimensão econômica, e suas articulações com o mercado de seguros. O resultado foi que povoamos o nosso portal com um elenco maior de estatísticas, e, principalmente, análises.

A CNseg é hoje uma referência em análise de dados sobre o setor, com um trabalho sistemático visível por meio de diversas iniciativas dos últimos anos, a última tendo sido a publicação do ranking das empresas do setor. Menciono principalmente as edições da Conjuntura CNseg, que é a “âncora” de uma série de dados e análises, que vão do desempenho do setor, passando pela sua articulação com os movimentos da economia e sociedade, até análises e artigos sobre as várias dimensões dos seguros. O ponto importante disso tudo é a sua utilidade prática. Seja para o posicionamento de mercado das Associadas, seja para formar nossa opinião sobre o ambiente econômico e setorial como subsídios para o Governo, Legislativo e Judiciário, seja para proposições objetivas sobre vários temas regulatórios, passados e em curso.

E agora, quais são os seus planos? 

Para um ex-regulador, executivo e profissional de seguros com trajetória ao longo de 29 anos, ter participado da liderança de uma entidade com o peso e responsabilidade da CNseg exige muita reflexão sobre o futuro. Planejamos antecipadamente e detalhadamente a renovação da condução da Confederação, e tenho muito orgulho dessa transição que fizemos. Pretendo doravante cuidar dos meus afazeres pessoais e familiares, sem pretender deixar de oferecer a minha contribuição dessa experiência acumulada onde puder ser útil para os seguros.

Entrevista publicada originalmente no Blog Sonho Seguro

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